quarta-feira, julho 09, 2008
quarta-feira, junho 25, 2008

Daqui de onde estou não vejo nada que não seja cinza, a altura me dá vertigens, talvez por isso fico aqui lembrando coisas como se fosse ontem. Foram há quantos anos mesmo? Dez, quem sabe, onze. Não importa. Não importa? Tanto que guardo na memória, fazem exatos 10 anos e 10 meses. E tento esconder como quem diz faz-tanto-tempo-de-nada-me-lembro. Mas não me desfaço de nada que seja minha vida.
Por tudo que não foi dito, porque não foi dito.
Por tudo que não foi dito, porque não houve tempo de dizê-lo.
Por tudo que não foi dito, porque não devia ter sido dito.
Por tudo que não foi dito, porque não conseguiu ser dito.
Por tantas coisas que vivemos e que hoje não sei dar nome, número, cor. Às vezes não sei nem quando vivemos e chego a pensar se realmente as vivemos.
Por tudo que não foi dito, porque dissemos.
ouve-se:
Um amor assim violento
Quando torna-se mágoa
É o avesso de um sentimento
Oceano sem água
Ondas, desejos de vingança
Dessa desnatureza
Bateu forte sem esperança
Contra a tua dureza
segunda-feira, junho 23, 2008
um tom
como se diz de alguém que se encaixa justinho em alguma coisa.
era frouxo, apertado: não cabia nesse tom que lhe fora dado, desejado, esperado.
talvez isso: tão esperado foi que encontrasse que pertencesse que conhecesse a fundo
que - abusado que era - não foi.
e não planejou, o rapaz, ter se dado dessa forma ter sido dessa maneira ser dessa maneira sendo.
e não houve em seu caminho quem compreendesse.
quantas notas precisariam para tal?
qual a melodia que te toca?
e o ritmo que repercute aí em tu?
se as minhas palavras são inúteis, incompreensíveis, tijolos fincados no asfalto, sem possibilidade que vôem que vôem q u e v ô e m
como apreender o que eu digo se teu ouvido te pertence tanto que ensurdece?
domingo, maio 25, 2008
de repente
aos meus olhos
a nuvem que já não era nuvem
o sol que se transformou numa grande âncora imersa no solo dos homens
e não só naturezas,
o meu corpo parecia mais o de uma estátua antiga, paralisado, incolor, cravado no tempo
enxergava pessoas como quem enxerga luzes ofuscadas, se diluindo no espaço, viravam o próprio espaço, indiscriminadas
não sei como se deu
aos meus olhos
essas imagens
que mais pareciam cascas, duras, grossas
humanas.
segunda-feira, maio 12, 2008
terça-feira, maio 06, 2008
terça-feira, abril 22, 2008
Procura em volta, nas ruas, nos cantos, nos rostos, no espelho:
olha-se, não lhe diz nada, não há nada o que dizer, procura, continua, nem dentro?
Nem dentro de si encontra um pertencimento?
Estranha-se. Não sabe qual é o próximo passo.
Hesita. Não há nada que lhe diga nada. Paralisa. Avança, só porque precisa (é empurrada pelo vento). Segue algumas luzes pelo caminho: qualquer coisa parece servir.
Não sabe de nada: vive porque é. Dói, dói e não dói, não dói: incomoda.
Pedra no calo. Calo que insiste na pedra.
sexta-feira, abril 11, 2008
pensava que
às vezes é preciso chover.
terça-feira, fevereiro 19, 2008
quase cuspia pulsações enquanto falava, quase brilho pra fora dos olhos quando ria e assim
por diante, vermelho do coração invadindo o salão, alegria de existir nos passos que dava,
e também,
ansiedade do tamanho da bahia inteira, racionalização multiplicada 10 vezes sobre si mesma que resultava em aflição, apreensão, angústia & (qualquer coisa semelhante que fosse, aplicada sobre o objeto de desejo, o que faz doer bastante), vontade de escutar o que lhe coubesse direitinho no peito, sem ajustes.
tinha um jeito quando se apaixonava que mais parecia foto com movimento, filme com cheiro, telefone que se vê por através, ou mesmo olho que levita, água que queima, luz que tem gosto, parede de travesseiros, música que salta espelhos.
: parecia mesmo era uma borboleta com alma.
sexta-feira, dezembro 21, 2007
o ar
a terra
o sol
uma náusea, uma criança, uma estrela.
ou ainda: uma folha, um riso, um bocejo. uma cor viva, uma cor morta, um calendário.
você e eu brincamos de se esconder. entre as linguagens. lacunas ensaiadas em frases planejadas.
olhares forjados, tontos, escurecidos.
um cenário ideal: falsário.
amores enigmáticos num cenário ideal, ideal e falsário, meu eu ideal para você. nós tão idealizados em nós mesmos, tão estranhamente implicados e distantes: farsistas farsantes.
segunda-feira, novembro 26, 2007
Era como se fôssemos dois.
Viam-nos como se fôssemos dois.
Juntos nossa conta era certa - era outra: meia pessoa em cada um.
A outra metade de nós era tão perdida, tão inevitavelmente perdida que se afogava em qualquer céu, em qualquer mar ou deserto que imitasse com beleza nossa dor sem beleza. E você logo diria que não sem beleza, pois não existe estética, não existe a beleza, não existe o que é a beleza e assim, nos colocaria numa posição mais confortável que é a de pressupor que nossa dor teria sua própria beleza ou sua beleza própria, se assim lhe coubesse melhor, e eu entenderia, usando algo que você chamaria de lógica binária, que no mundo tem espaço pra tudo, inclusive uma dor bela ou uma alegria triste. Mas não era isso, e você diria que não, na verdade não era isso, e que. Porém tudo já teria mudado de cor, uma rua errada, um minuto andando dois, hora disso, hora daquilo, conversa embrulhada no estômago me deu enjôo, você disse que foi o sol.
O sol, mais uma vez o sol.
quinta-feira, novembro 22, 2007
sobre coisas que surgem sob o sol
O sol faz muita coisa
como duas pessoas
se juntarem sob uma mesma aura
que inspira carinho
carinho
tranquilidade.
Num ponto mais distante -
o sol coberto -
duas pessoas não se entendem:
nem palavras nem gestos
Linguagens que vem e vão.
Em outros lugares -
inda que no mesmo lugar -
céu aberto, céu coberto
pessoas dizem não.
Apenas uma pessoa diz não
com o olho brilhando de (com) verdade.
Sossego ou desassossego:
aquele não é sim.
quinta-feira, outubro 04, 2007
Eu espero,
O que que há com nós dois, amor?
Me responda depois
Me diz por onde você me prende
Por onde foge
E o que pretende de mim.
Nunca soube direito.
Depois que você foi, passou a ser uma necessidade. Não de saber, que eu nunca soube. Mas de reconhecer. Reconheço a sua pessoa para mim, sua intensidade de pessoa para a minha complexidade de pessoa. Ou seria o contrário? Seria o que já é?
A distância não me fez mal. Me fez ser pessoa que tem saudade da outra pessoa. Me fez sentir saudade e reconhecer a saudade como algo que me coloca de frente pra você. E eu não sou pessoa de me colocar de frente. Do retorno não arrisco. Conheço minhas artimanhas comportamentais, sei dos perigos e hesitações que me transformam
quinta-feira, agosto 16, 2007
gestação
não digo só pelo tempo, mas pelos contratempos:
remexe tudo dentro
dá enjôo, náusea e mal-estar
chuta, quer nascer
desejos estranhos me tomam.
também posso falar da alegria: da alegria de dar um filho, parir um filho da minha própria barriga direto pro mundo. da expectativa dos olhinhos e bochechas, das novas experiências, de como vai ser quando essa vida sair de mim.
não é um mar de flores.
na verdade é: só que as flores tem espinhos e os mares também tem ondas violentas e bruscas. construir dentro de você uma nova pessoa é carregar uma coisa pesada e frágil e desconhecida. construir essa pessoa dá medo e as lágrimas saem escorrendo: nunca se é forte o suficiente. foi o que sempre me disseram: ninguém está preparado para ter um filho.
espero por esse filho: ele certamente me trará algo que só as mães que já tiveram que carregar esse peso e esse incômodo sabem:
da leveza.
domingo, agosto 05, 2007
quando fica sério demais
as coisas por dentro remexem tanto que:
tudo marcado na minha cara.
mesmo não sabendo o que é que
se emergem as emoções não aparo:
i feel
e sentir o que se sente
é coisa séria demais
pra vida cotidiana.
segunda-feira, junho 04, 2007
Da (im)possibilidade de estar
Estava na mesma posição há uma hora ou mais, nem brilhava nem sofria: estava. A chuva ora aumentava ora diminuía e ali estava se fazendo presente há quatro longuíssimas horas. Agora era hora de: nada. Inúteis que são as horas. Pensou: Que fariam as pessoas nessa cidade, nesse momento, nessa chuva, nesse domingo? Talvez um filme, pipoca, cobertor? Ou escrevendo nas suas agendas os compromissos inadiáveis da Segunda-Feira? Será que liam, as pessoas, o jornal volumoso de domingo, que traria possivelmente os mais desastrosos acontecimentos que a chuva teria causado no habitat dos humanos?
Provavelmente filhos, maridos, mulheres, sobrinhos, avós, pais e mães ao redor. Ginástica, será que alguém fazia? E um cigarrinho? Ou uma vela, incenso, fogão. Cheiravam pó, as pessoas? Trepavam? Faziam contas? Dormiam? Morriam pessoas? E nasciam. Talvez até sorrissem. Mesmo chorando.
Meu deus, com o perdão da descrença, que farás tu no meio dessa chuvarada num domingo como este?
É preciso muita criatividade pra viver. O resto é nada.
quinta-feira, abril 12, 2007
ensaio
que quase chega
Poesia
que quase vem
Palpitam sentimentos e palavras
enquanto analisam os céus
Até que eles permitam
não sai nesse papel
coisa nenhuma no mundo que seja poesia
Só ensaio.
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
devaneiar
Ir-me
Deixar-me
Não me deixam
Não me deixo
O que é meu não me é
Meu vôo é chão, rasteiro e cheio de pedras
Eu gosto de mim para mim
Quem me entende não se entende
Meus olhos me falam sobre alguém
Com minhas mãos me seguro firme
Não posso ir
Quero
Quero com a boca, com as bochechas, com o sorriso
As unhas são grandes e afiadas
Não consigo-me conseguir a mim
A cabeça tão cheia de cabeças e me deixam tonta
Os cabelos são tantos e tão cheios de humores
Arranco os mais rebeldes
Há de se seguir o caminho
Esse, que não existe
Esse, que se caminha
Esse que quero
Não consigo
sexta-feira, janeiro 05, 2007
Experimento Vivo

Calejado o coração –
E a alma –
Anda de cabeça tão baixa
Que já não é mais possível
Sonhar ou qualquer coisa
Dita assim: celeste.
Doem os entres.
Sobrevive.
Já se passam tantos invernos desde.
Os líquidos são constantes amigos (constanteando fiéis)
Sangue
Lágrimas
Sêmen
Vômito
Suor
Saliva
Vinho
Tudo escorre e depois: nada.
Nadam dentro de.
Dentre.
O enjôo, a náusea, a fadiga, o mundo rodopiante vencem.
Tudo tão misturado e se misturando
Fazendo dela o próprio experimento vivo:
um eterno liquidificadorizando-se.